O que são os alimentos agroecológicos?

Olá pessoal,

Aqui na Casa Horta vamos falar sempre sobre produtores e alimentos agroecológicos. Então para nosso primeiro post no Blog nada mais apropriado do que apresentar para vocês o que significa agroecológico - e por que não é um sinônimo para orgânico!

Os alimentos orgânicos são regulamentados, no Brasil, pela Lei No 10.831, DE 23 DE DEZEMBRO DE 2003. Para que um alimento possa ser chamado de orgânico, ele precisa ser certificado por "organismo reconhecido oficialmente, segundo critérios estabelecidos em regulamento", conforme a Lei. Existem algumas formas de certificação, mas esse não é o ponto do texto de hoje! Apesar da Lei falar de muitos aspectos, como a saúde do solo e incentivo à biodiversidade, na prática, os orgânicos se distinguem dos produtos da agricultura convencional por não utilizarem agrotóxicos e fertilizantes químicos sintéticos, existindo uma lista específica daquilo que é permitido para essas culturas. Outros pontos, como a qualidade da água e a procedência das sementes utilizadas também são considerados. Assim, o produto orgânico é melhor para a saúde humana (tanto do agricultor quanto do consumidor) e para o meio ambiente.

Os alimentos agroecológicos, por sua vez, não possuem uma definição única a partir de uma Lei ou diretriz nacional. A agroecologia não é uma classificação de produtos, mas uma visão de mundo, abrangente e que fala de mudanças profundas, incluindo as questões sociais e culturais.  Ela é um movimento em resposta à revolução verde e às consequências indesejadas que ela trouxe: a decadência dos solos, a monocultura, as secas e distúrbios no ciclo da água, as contaminações tanto dos agricultores quanto da natureza, a perda de biodiversidade, a concentração de renda e dependência de multinacionais, o êxodo rural e muitas outras questões.

Assim, a agroecologia busca trazer novos sentidos para a agricultura, recuperando algumas práticas e valores tradicionais. Por outro lado, a engenheira agrônoma e professora Ana Maria Primavesi, uma das pesquisadoras mais importantes do universo da agroecologia, destaca que "a agricultura ecológica não é uma volta ao passado, mas um avanço", pois acredita que essa forma de agricultura está fortemente baseada na ciência, mas na ciência do futuro: holística e sistêmica, ao contrário da ciência fatorial, que olha somente para os sintomas e para cada parte isoladamente. 

A ciência agroecológica vê e trabalha com os ciclos e sistemas da natureza (ecossistemas), incluindo o próprio homem em sua visão holística, ou seja, por inteiro. E este inteiro inclui solo-planta-animal-homem, por isso inclui o aspecto tanto agrícola como social e ético e, portanto, também o político e econômico.
— Ana Primavesi

É chamada de agro-eco-lógica por seguir a lógica do local, dos fatores naturais (solo-água-clima) de um lugar. Na base de tudo, a saúde do solo: solo sadio - planta sadia - homem sadio, era o mantra da Profa Primavesi. Nela, existe um componente quase "artesanal, humano, respeitoso e pessoal (1) ", pois cada agricultor deve estabelecer uma relação com a terra, ser um grande observador da natureza e trabalhar em harmonia com ela.

Na prática, além da questão óbvia de nenhuma aplicação de agrotóxicos sintéticos e do uso de remédios da natureza em caso de doenças ou insetos indesejados, o foco é na compreensão de porque esse inseto ou doença apareceu e na correção do desequilíbrio que permitiu que isso acontecesse. Muitas vezes, o inseto ou doença fora de controle é um sinal de que algo não está certo - e saber ler esses sinais, é uma ajuda valiosa! Segundo a Professora Primavesi, "plantas bem nutridas são sadias e não necessitam de defesa nenhuma". Parte do sucesso em ter plantas bem nutridas é escolher e incentivar plantas adaptadas ao local específico. Ainda, na prática, deve haver suficiente matéria orgânica, biodiversidade vegetal (o consórcio e rotação de culturas é muito importante), cobertura do solo, adubação verde, áreas de reservas florestais e o controle do vento, para não perder umidade. É uma agricultura que não está preocupada em diminuir impactos negativos, mas em regenerar e cuidar dos ecossistemas.

Por fim, vale ressaltar também o aspecto social da agroecologia. O Prof. Miguel Altieri nos lembra que:

Novos agroecossistemas sustentáveis não podem ser implementados sem uma mudança nos determinantes socioeconômicos que governam o que é produzido, como é produzido e para quem é produzido. Para serem eficazes, as estratégias de desenvolvimento devem incorporar não somente dimensões tecnológicas, mas também questões sociais e econômicas.

Então, resumindo, os alimentos que você encontra na Casa Horta são produzidos por agricultores que não utilizam agrotóxicos, e vão muito além: eles entendem a natureza sistêmica do belo trabalho que realizam, operam em harmonia com a natureza, olham para as causas de algum possível desequilíbrio, tratam suas plantas para que elas sejam sadias e nutritivas, cuidam do solo e da água, pensam na biodiversidade de toda a propriedade. Eles também atuam em conjunto, trocam conhecimentos e se apóiam, promovem a agricultura familiar e sonham com uma vida digna no campo.

Alguns dos produtores possuem certificação de produção de orgânicos, mas a confiança na qualidade do produto vem do fato que eles têm uma profunda consciência da saúde do ecossistema e da própria saúde, consumindo o mesmo alimento que vendem, com orgulho. Eles também tem apoio técnico de redes agroecológicas. Em nossas visitas, ficamos sempre maravilhadas com a visão e sabedoria que possuem.

Queria terminar deixando um convite: que tal pensar o que seria um "consumidor agroecológico"? Sabendo um pouco mais sobre agroecologia, no sentido da agricultura mas também dos valores e visão de mundo que ela traz, podemos juntos nos posicionar como consumidores, procurando consumir localmente, de forma justa e equilibrada, respeitando a sazonalidade e aptidão de cada lugar; podemos ter curiosidade sobre plantas tradicionais da nossa região e procurar uma alimentação diversificada e natural. É para isso que a Casa Horta está aqui!

Um grande abraço, Fernanda


P.S. Você sabia? O Brasil possui um Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, o Planapo, que se encontra na versão 2016-2019. Ele aponta os impactos que a agricultura convencional trouxe para o país e diz que "A agroecologia desponta, neste cenário, como uma alternativa viável para a construção de um novo paradigma para a agricultura, que promova a ampliação das condições de acesso a alimentos saudáveis, a partir de sistemas de produção agrícola ecologicamente equilibrados, e que contribua para o fortalecimento de bases estruturais socialmente justas e inclusivas para o campo".

Leituras recomendadas e utilizadas na elaboração do texto:

  • Ana Maria Primavesi - Histórias de Vida e Agroecologia, de Vírgnia Mendonça Knabben

  • Agricultura natural - a solução para os problemas atuais, da Profa. Dra. Ana Maria Primavesi

  • Pergunte ao solo e às raízes, da Profa. Dra. Ana Maria Primavesi

  • Agroecologia - A dinâmica produtiva da agricultura sustentável, Miguel Altieri

  • Planapo 2016-2019, acessível através desse link 

  • Agroecologia: alguns conceitos e princípios, Francisco Roberto Caporal e José Antônio Costabeber

(1) Fala de Fernando Ataliba, um "primavesista", conforme sua própria descrição. Relato encontrado na biografia de Ana Primavesi, "Ana Maria Primavesi - Histórias de Vida e Agroecologia", de Virgínia Mendonça Knabben, uma ótima leitura!